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Entre os extras do DVD de Instinto Selvagem, tem uma entrevista com Paul Verhoeven, o diretor do filme. O repórter, ao que parece da TV holandesa, fala sobre o fato dele ser uma das 10 personalidades holandesas de maior sucesso. Muito sabiamente, Verhoeven afirma que o sucesso é algo relativo e aproveita esse ensejo para dizer que o último filme dele até aquele momento, The Hollow Man, foi um sucesso comercial, mas era um filme vazio para ele. Como diretor, ele afirma ainda que as coisas estão cada vez mais difíceis (isso já na época da entrevista), porque tudo era somente em nome do lucro fácil e da diversão vazia. Francis Ford Coppola, diz algo semelhante nos extras de Drácula de Bram Stocker, onde o ítalo-americano diz que hoje em dia ele se sente mais realizado com a sua vinícola que fazendo filmes, pois está no limite do impossível encontrar financiamento para projetos mais autorais.
No inicio dos anos 80, a feroz crítica de cinema Pauline Kael escreveu um artigo premonitório intitulado “Por que os Filmes são Tão Ruins? Ou, os Números”, e que veio recentemente a tona numa coluna do André Barcinski para o portal UOL. No artigo, Pauline já afirmava entre outras coisas que: “Filmes são tão ruins ultimamente que eu não acho que eles estejam atraindo o público, acho que eles estão herdando um público.” Indo mais além: “Os estúdios acreditam que bons resultados de bilheteria são a prova de que os espectadores gostam dos filmes, assim como executivos de TV acreditam que os programas de maior audiência são os que o público quer, e não os que o público aceita.” Nem é preciso dizer mais nada. Basta olhar para a grande maioria de filmes em cartaz atualmente e ter certeza de que algo podre ocorre no reino da Dinamarca.
Voltemos novamente no tempo um pouco. Richard Corliss em seu artigo When Porn Was Chic, afirma no final do texto que uma das razões para o ocaso do período dourado do cinema pornográfico americano dos anos 70, não foi somente o advento do vídeo-cassete como muitos pensam, e sim o sucesso de filmes como Tubarão e Guerra nas Estrelas. Já que o sucesso acachapante dessas duas películas entre a massa de jovens e adolescentes fez com que executivos, distribuidores e exibidores ignorassem qualquer tentativa voltada mais para o mercado adulto. Convém lembrar aqui, que estamos falando dos filmes pornôs feitos no chamado fenômeno do pornô chic, que iam além do mero espetáculo onanista para tentar uma abordagem mais profunda e ousada dos inúmeros aspectos da sexualidade.
Voltemos então a 2010. O panorama da indústria do entretenimento de um modo geral é desolador. O mercado musical sofre com um processo de baixas vendas, menos por culpa dos downloads ilegais e mais devido aos sucessivos investimentos acéfalos dos executivos em músicas descartáveis, o público realmente consumidor de música envelheceu, muitos dos possíveis apreciadores de música de hoje foram educados por muito tempo com música ruim e sem significado. Como poderiam eles saber que música é algo mais profundo, se durante anos essa indústria empurrava goela abaixo coisas que você ouve agora e esquece daqui a pouco? Como demonstrar a importância de se ouvir algo que um compositor trabalhou durante um bom tempo, pensou numa letra com algum significado um pouco mais profundo, e cuja produção é algo cheio de camadas, quando o que os executivos ensinaram foi a consumir a imagem vazia? Isso gera até um outro problema mais subjetivo. Antigamente quando alguém comprava um CD ou até mesmo LP de difícil aquisição, reunia-se aos amigos para compartilhar o momento que era ouvir aquele material. Havia uma troca cultural no processo de se ouvir música. Hoje está mais fácil a aquisição de coisas que outrora eram muito mais complicadas, mas ainda que a internet permita a troca de impressões sobre determinado trabalho em escala global, nem todos estão dispostos a isso. Mesmo porque não foram educados para isso.
O fenômeno é semelhante com os quadrinhos, que nos anos 90 sofreram com a idéia das Estórias e séries eventos, mas que cuja profundidade era a mesma de uma colher. Estórias que venderam horrores, mas cuja relevância cultural pode ser medida no que acontece hoje. Por mais que se diga que quadrinhos estão hoje mais importantes do que nunca foram por causa da associação com Hollywood, é melhor olhar com mais atenção. Ou achar que faturar milhões com adaptações para o cinema seja o termômetro de sucesso desse povo. Quando se cria um personagem de quadrinhos já se está pensando na adaptação para a tela grande e não no desenvolvimento de um mitologia toda própria na Nona arte, é porque tem algo muito errado. Melhor é ser logo corajoso e escrever a droga de um roteiro para cinema. Já se vai muito longe o tempo, quando nos anos 80 os quadrinhos foram tomados de assalto por coisas relevantes como as estórias do Demolidor feitas por Frank Miller, Sandman do Neil Gaiman, Watchmen do Alan Moore. Material que até hoje é relevante. Passados muitos anos, Frank Miller virou um arremedo de roteirista para os quadrinhos e uma nulidade como cineasta (basta ver a sua adaptação para o Spirit). Cabe lembrar que estou falando aqui do Mainstream, eu sei que tem coisas muito boas sendo feitas de modo independente. Mas até mesmo esses tem uma certa dificuldade de sobrevivência.
A coisa é tão feia quanto com o cinema. A era dos filmes eventos continua. Avatar foi um espetáculo vazio, cujo previsibilidade do roteiro é proporcional ao sucesso de bilheteria, muito em função do 3D, o que fez com os executivos da indústria, essa raça de engravatados acéfalos queiram fazer qualquer bobagem agora em 3D. O que essas bestas não percebem, ou percebem mas não se preocupam com isso por fazerem parte de uma raça parasitária que não está nem aí se o cinema vai viver ou morrer, desde que eles arrumem outro lugar para sugar a vida. E o que eles não percebem é justamente que ousadia, integridade é o que faz com que algo seja duradouro. Muitos fãs de cinema, ainda assistem E O Vento Levou (feito em 1939), Laranja Mecânica (1971), Apocalypse Now (1979). Mas é bom ficar quieto ou os executivos boçais podem entender errado e quererem fazer mais um dos desnecessários remakes que aparecem durante o tempo todo. Muitos filmes atuais são feitos com o toque do imediatismo, quanto tempo as pessoas continuarão assistindo Crepúsculo e congêneres? Os filmes hoje obedecem a uma formula, que pode até gerar dividendos nas bilheterias, mas que é danoso à arte e à indústria no médio e longo prazo.
Isso nos leva a um exemplo perfeito do ontem de lucro, que gerou um presente desolador. A indústria pornográfica está agonizando, por culpa dela mesma. Que durante anos se rendeu ao lucro fácil dos filmes gonzos (aquelas produções em escala industrial, feitas com câmera na mão e sem roteiro). As produções baratas e rápidas feitas para o mercado de vídeo gerou lucros absurdos durante muito tempo, mas acostumou o público apenas as cenas de um modo isolado, não ensinou como o pornô setentista fazia, que era ver o todo, a ver o sexo mesmo explícito inserido num contexto narrativo-dramático e estético. Não é a toa que os downloads ilegais afetariam a indústria. Com o gonzo, para que um consumidor irá se preocupar em ter um filme inteiro de cenas repetitivas, se ele pode ter apenas um pequeno trecho para ver enquanto se masturba?
Mas felizmente existem muitas pessoas querendo fazer algo diferente. Essas pessoas penam com os vícios cultivados pelos idiotas da industria que durante anos a fio sabotaram toda uma área do entretenimento. Foi assim com o pornô, e será assim na música, e no cinema, em escala menor, mas será.
Só que ao invés de lamentar. Se pode usar a internet como uma ferramenta de apoio, e com ela ainda assim tentar fazer algo relevante, e não somente mais do mesmo para consumo imediato. Por isso há que se celebrar as iniciativas de gente como Maria Beatty que faz filmes belíssimos, que até o mais radical anti-pornô fica balançado ao ver. Chase Lisbon da Supercult. Erika Lust, ainda que um pouco chatinha no seu discurso, mas seus filmes tem uma característica toda própria. A Jennifer Lyon Bell. E claro, o kink.com.

Isso é um filme pornô. O que mostra que é possível fazer algo relevante e ousado.

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Um discussão sobre amor e sexo num dos melhores filmes pornôs já feito.

The Story of Joanna, filme de 1975, dirigido por Gerard Damiano (o mesmo de Garganta Profunda). Mr. Damiano queria para esse que foi o terceiro filme dele, adaptar o clássico da literatura BDSM, A História de O. Ele não conseguiu os direitos. Mas não se deu por vencido e adaptou um dos capítulos do livro, misturando a uma estória de Sartre.

De certa forma, The Story of Joanna mesmo não sendo um dos filmes mais famosos de Gerard Damiano, O Diabo na Carne de Miss Jones e Garganta Profunda possuem esse posto, é certo que o seu terceiro filme é o seu melhor trabalho e uma das obras-primas do periodo dourado do cinema pornográfico americano. Um dos poucos filmes pornográficos a fazer bom uso de elementos bdsm na criação de uma narrativa poderosa.

Jamie Gillis um dos melhores atores (ator mesmo), que já passaram pela indústria. E aqui ele está brilhante no papel de Jason, um recluso aristocrata que se torna o amor de Joanna. Joanna que é o papel de Terri Hall, uma não muito brilhante atriz, mas um dos corpos mais belos da pornografia setentista, afinal, uma ex-bailarina do Stuttgart Ballet, e que na vida real tinha um fraco pelo BDSM, talvez por isso ela tenha tirado de letra as cenas de spanking, bondage e submissão presentes no filme.

A dinâmica do relacionamento amoroso é estabelecida logo cedo no filme. E a narrativa segue a linha típica dos clássicos bdsm no que se refere ao conceito de iniciação e jornada de auto-descoberta da garota que se submete estoicamente a todos os desejos do homem que ela ama e do homem que corrompe a natureza de aparente pureza dessa jovem. O Marquês de Sade ficaria orgulhoso desse filme.

Assim como em seu filme anterior, O Diabo na Carne de Miss Jones, Damiano mantém a criação de um teor atmosférico, quase lúgubre para a narrativa, que ajuda ainda mais a sedimentar aquilo que a história se propõe. Além disso, essa característica, parece ter sido feita com um total desrespeito tanto para o nicho de audiência ou convenções do gênero.

Este é um filme que é totalmente desprovido de nudez até que transcorrida quase que um quarto de hora, e uma dessas primeiras cenas é uma que integra uma seqüência de demorada de ballet  muito antes da primeira cena de sexo prolongado. A mais impressionante cena de sexo entre todas dentro do filme (e possivelmente algo único no mundo do hardcore heterossexual) é o ato de sexo oral que o mordomo aplica em seu mestre. É interessante notar que, embora o conteúdo sexual seja bastante esparso para os padrões contemporâneos (de fato, o primeiro e terceiro atos são quase totalmente livre desses elementos) há uma série de cenas que poderiam ser considerados transgressivas. Além do referido boquete, o filme contém cenas de sexo grupal, dupla penetração, fisting e o estabelecimento de uma coerção protaganista/heroína que seria desaprovada hoje.

Apesar de toda aparente brutalidade, ainda mais para àqueles que não entendem a dinâmica erótico-afetiva de uma relação BDSM e que, verdade seja dita, essa brutalidade é mais psicológica do que física, este é um filme sem sombra de dúvida, elegante. As locações espetaculares e o figurino cuidadoso são certamente um fator, mas uma menção especial deve ser dada a cinematografia lânguida. A cena de sexo entre Terri Hall e Zebedy Colt (o mordomo) é particularmente relevante aqui, inteiramente rodada em extremo close-up, a câmera se arrasta lentamente apenas por partes identificáveis do corpo, dando um resumo, quase onírico, de um encontro carregado de emoção. A onipresente trilha sonora clássica, por vezes ameaçadora e por outras etérea, também contribui enormemente para o ar geral de decadente refinamento.

The Story of Joanna se mantém como um clássico exemplo de um período quando os filmes pornográficos eram feitos com ao mesmo tempo grandes aspirações artísticas e o desejo por reconhecimento de um credibilidade dos críticos.